terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sobre a tirania

"Eugène Ionesco , o grande dramaturgo romeno, pôde assistir ao sucessivo resvalar dos amigos  na linguagem do fascismo durante a década de 1930. Esta experiência tornara-se o fundamento para a sua peça de teatro do absurdo, Rhinocéros, escrita em 1959, na qual aqueles que se tornam presas da propaganda são transformados em gigantes criaturas com cornos. Acerca das suas experiências pessoais, Ionesco escreveu:
Professores universitários, estudantes, intelectuais, todos estavam a tornar-se nazis, membros  da Guarda de Ferro, uns a seguir aos outros. Ao princípio, não eram por certo nazis. Juntávamo-nos, cerca de uns quinze no grupo, para conversarmos e tentarmos arranjar argumentos que contrariassem os deles.
Não era fácil…De tempos a tempos, um dos nossos  amigos dizia: “ Não concordo com eles, isso posso garantir, mas em certas questões, ainda assim, tenho de admitir que os judeus , por exemplo…” etc..  E isto era um sintoma. Três  semanas mais tarde,  essa pessoa acabava por tornar-se nazi. Era apanhada pelo mecanismo, passava a aceitar tudo, tornava-se num rinoceronte. Lá para o fim , só três ou quatro de nós ainda se opunham.

O propósito de Ionesco foi o de nos ajudar a ver o quão bizarra é de facto a propaganda, e ao mesmo tempo o quão normal parece para aqueles que acedem à sua linguagem. Ao apropriar-se  da absurda imagem de rinoceronte, Ionesco procurava chocar as pessoas de forma que elas se apercebessem da estranheza do que estava realmente a acontecer.
Os rinocerontes vão-se passeando pelas nossas savanas neurológicas. Actualmente, damos por nós especialmente interessados  em algo a que chamamos “ pós-verdade”, e assim revelamos uma tendência para achar que o menosprezo por factos do quotidiano e a construção de realidades alternativas, meras consequências  desse conceito, referem-se a algo novo ou pós-moderno. Porém , pouco ou nada há nisto  que George Orwell não tenha  concebido há sete décadas , com a sua noção de “duplo-pensar” (Doublethink). De acordo com a sua filosofia, a pós-verdade restabelece a atitude fascista perante a verdade -  e é por isso que nada neste nosso mundo poderia alguma vez deixar Klemperer ou Ionesco verdadeiramente surpreendidos.
Os fascistas deprezavam as pequenas verdades do quotidiano, tinham uma adoração por slogans que ressoavam como uma nova religião e davam preferência à invenção de mitos em detrimento da história e do jornalismo. Usavam novos meios de comunicação, que na altura  se resumiam à radio, com o objectivo  de criarem um constante ruído de fundo propagandístico que acabava por estimular as emoções antes que as pessoas  tivessem tempo para averiguar os factos. E nos tempos actuais, como aliás no passado, muitas pessoas passaram a confundir  a sua fé num líder dado aos piores defeitos com a verdade do mundo que todos nós partilhamos.
Pós-verdade significa pré-fascismo.”
Timothy Snyder, in “Sobre a Tirania – Vinte Lições do Século XX”, Relógio D’Água Editores, Julho 2017, pp. 56, 57

domingo, 24 de setembro de 2017

Ao Domingo Há Música

“Ainda que chova, ainda que doa. Ainda que a distância corroa as horas do dia e caia a noite sem estrelas, o mundo brilha um pouquinho mais a cada vez que sorri.” 
                                                  Pablo Neruda

Palavras para quê? Expressão que se repete, quando já está tudo dito . E o poeta acabou de o fazer.  E se sorrir faz brilhar o mundo, a música tem esse poder.
Eis a bela voz de Noa, na sorridente canção "Beautiful that way", ilustrada na areia,  pelo talento de Ilana Yahav.


Noa e  Sting, em  Fields of Gold, num espectáculo no Olympia, Paris.

sábado, 23 de setembro de 2017

Entrevista

Entrevista


Telefonam-me do jornal: 
-Fale de amor - 
diz o repórter, 
como se falasse 
do assunto mais banal. 
-Do amor? -Me rio 
informal. Mas 
ele insiste: 
-Fale-me de amor - 
sem saber, displicente, 
que essa palavra 
é vendaval. 

-Falar de amor? - Pondero: 
o que está querendo, afinal? 
Quer me expor 
no circo da paixão 
como treinado animal? 

-Fala...-insiste o outro 
-Qualquer coisa. 
Como se o amor fosse 
“qualquer coisa” 
prá se embrulhar no jornal. 

-Fale bem, fale mal, 
uma coisa rapidinha 
-ele insiste, como se ignorasse 
que as feridas de amor 
não se lavam com água e sal. 

Ele perguntando 
eu resistindo, 
porque em matéria de amor 
e de entrevista 
qualquer palavra mal dita 
é fatal.
Affonso Romano de Sant'Anna 

"Nasceu em Juiz de Fora, M.G., em 1938. Poeta, ensaísta, professor e doutor em literatura pela UFMG. Teve actuação destacada no movimento literário dos anos 1950 e 1960, além de intensa vida académica no Brasil e no exterior. Publicou o primeiro livro Canto e palavra em 1965 e passou a escrever para os principais jornais do país, sem jamais abandonar a poesia. Publica, em 1975, Poesia sobre poesia ,1980, Que país é este? e em 1981, A morte da baleia (1991). Na prosa, destacam-se: Carlos Drummond de Andrade – análise da obra (1980), a sua tese de doutoramento, Análise estrutural do romance brasileiro (1973) e Por um novo conceito de literatura brasileira(1978). Por seis anos (1990-1996) dirigiu a Biblioteca Nacional, dotando-a de uma flexibilidade administrativa e modernizando muitos de seus serviços. Em 1998, foram reeditados e reunidos num só livro A grande fala do índio guarani e A catedral de Colónia. O interesse pela arte barroca rendeu dois livros: Barroco, a alma do Brasil (1997) e Barroco, do quadrado à elipse (2001). Tem cerca de 70 livros publicados, e em 2000 prestou uma contribuição significativa a quem quisesse  aventurar-se pelos caminhos da literatura, lançando A sedução da palavra, uma espécie de manual introdutório à criação literária. Em 2004 foi publicada a sua Poesia reunida 1965-1999, em dois volumes. Em 2007 publicou uma colectânea de ensaios ou cronicas culturais, como o autor prefere chamá-las: A cegueira e o saber. Obras mais recentes: Perdidos na Toscana (2009), Crónicas para jovens (2011), Ler o mundo ( 2011) e Como andar no labirinto (2012), uma colectânea reunindo 65 crónicas. "


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O coração do menino

O coração do menino e o menino do coração
"O miúdo nasceu com as acertadas aparências. Só em altura de ensaiar primeiras marchas lhe notaram o defeito, o enviesamento nos pezinhos, cada um não sendo como cada qual. Sobre as pegadas estrábicas a avó vaticinou:
- “Este menino vai caminhar para dentro dele mesmo”.
Depois outra malconveniência se somou: o rapaz engrumava as falas, tatebitudo. Os outros não entendiam mais que cuspes e assobios, até os parentes o escutavam com riso parvo de quem finge concordância. Não há medo maior que não se entender humana a voz de outra humana pessoa.
A mãe conduziu a criança ao hospital. O doutor lhe mergulhou o ouvido no peito e se ensurdeceu de tanto coração. O menino tinha o pulsar à flor da pele. O médico parecia entusiasmado com o inédito do caso.
- “Necessitamos que ele fique, para mais exames. . .
- “Nem pensar. Esse menino entrou comigo, há-de sair comigo.
- “Mas a senhora nem faz ideia... temos que encontrar um nome para a doença dele.
- “Como um nome?
- “Essa doença: eu tenho que lhe encontrar um nome!
- “Mas esse nome, será que esse nome vai curar a doença dele?”
O médico sorriu. Ai, essa gentinha simples, tão exímia em ser pensada pelos outros. E assim, sorriso descaindo no lábio, ficou olhando mãe e filho se afastarem no corredor. O menino levava em sua mão, descaída como pétala, uma carta que ele mesmo redigira. Queria ter dado ao doutor esse papelinho que sua inabilidade enchera de letrinha. Com desatenta ternura, a mãe lhe tirou o papel dos dedos e o lançou no latão. A mania desse mirabolhante! Deveria ser outra dessas tantíssimas cartas que o tontinho fingia escrever para sua apaixonada priminha.
- “Você ainda se carteia com Marlisa?”
O menino negou com veemência. A mãe sacudiu a cabeça. Enfim, quanto ela se esforçara em vão. Valera a pena insistir ensinamentos em quem nunca aprendera? Também Marlisa, a visada sobrinha, jamais cedera a abrir tais cartas. Nem valia a pena espreitar a caligrafia do atarantonto. Uns andam na lua. No caso, a lua é que andava nele.
Certa vez, o rabiscador daqueles engatafunhos desabou no fundo do tempo. O menino faleceu, em azulidão de pele, todo frio como se nenhuma luz dele tivesse vontade. Os médicos acorreram para levar o corpo e lhe administrarem a extrema-autópsia. Lhe arrancaram o coração, o universátil músculo, enormíssimo como um planeta carnudo. O órgão ficou em vitrina, exposto às ciências e aos noticiários. Os cardiologistas disputavam, em sucessivos colóquios, um apropriado nome para baptizar a anormalidade.
Passaram-se os dias, anónimos. Era um fim de tarde, a prima Marlisa, ao arrumar as poeiras de casa, deparou com o monte das inúteis cartas. Sopesou-as antes de as lançar em fogo. Hesitou por um segundinho: o moço sabia abecedar uma simples linha? Pelo sim pelo talvez, ela se aventurou a espreitar o primeiro envelope. E ali se sentou em espanto, ruga na fronte, mãos enrolando um demorado cabelo. Ficou horas, no assentado degrau. Aquilo não eram cartas mas versos de lindeza que nem cabiam no presente mundo. Marlisa inundou a tristeza, tingiram-se as letras. Quanto mais a prima primava em seguir leitura mais rimava com nenhuma outra mulher, toda ela fora do contexto de existir. A moça se apaixonava postumamente?
Mas ali, arremessada na escada, nem Marlisa imaginava o que, no simultâneo tempo, se passava com o coração do primo que Deus e a ciência guardavam. Pois que, na vitrina gelada do Hospital, mal se rasgou o primeiro envelope, o coração do primo deflagrou em sobressalto. Um “oh” se estilhaçou nos visitantes. E à medida que Marlisa, mais longe que mil paredes, ia desfolhando versos, o coração mais se desembrulhava, tremelusco-fuscando. Até que, daquele novelo vermelho, se viu desprender um braço, mais adiante um pé e a redondez de um joelho e mais argumentos que faziam valer o facto: aquele coração estava em flagrante serviço de parto! E se confirmava, vinda das entranhas do útero cardíaco, uma total recém-criança.
E quando, finalmente, o parto se desfechou se viu que o menino nascera igual ao seu progenitor de peito. Fazia medo como um quimicava o outro a papel chapado. Em tudo se semelhavam menos no desenho do pé. Os pés do nascido eram divergentes, como quem viesse para procurar, fora de si, gente de outras estórias."
Mia Couto, in Contos do nascer da Terra , Editorial Caminho

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Mas é música...

A música, sim a música...

A música, sim a música...
Piano banal do outro andar.
A música em todo o caso, a música..
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda a criatura humana
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal.
Mas é música...

Ah quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas?,
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!

Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!
 19-7-1934

Álvaro de Campos , em  Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

29 de Junho de 1941

Iasi - Arrested Jews being escorted to police headquarters with their hands in the air
        Arrested Iasi Jews being escorted to police headquarters
        with their hands in the air.  From The Iaşi Pogrom, June-
        –July 1941: A Photo Documentary from the Holocaust 
       in Romania, by Radu Ioanid, (Sept. 2017), Indiana Univ.
       Press in assoc. with U.S. Holocaust Memorial Museum.
Were These Holocaust Survivors Forced Into a Ghetto? The Answer Will Determine Their Financial Future
Updated: Jun 28, 2017 11:08 AM ET
"She was only 6 years old when the pogrom began, but Frances Flescher remembers everything.
As a little girl, Flescher was part of the substantial Jewish population of the Romanian  city of Iasi. But, though 30% of the city's population was Jewish by 1930, according to Yad Vashem, anti-Semitism spread during that decade, and the country ended up on the Axis side once World War II began. Then, on June 29, 1941, her father said he was going out to buy cigarettes and never returned.
In fact, by then, it was already the second day of the pogrom during which police, soldiers and civilians killed or arrested thousands of Jewish citizens of Iasi. On the heels of bombing of the city by Soviet forces — after which, according to Radu Ioanid’s history of the pogrom, Jews were accused of Soviet collaboration and systematically hunted down by their neighbors — thousands of people were murdered in the streets. Following that massacre, about 4,000 more Jews from Iasi, by Yad Vashem’s count, were put on “death trains.” Packed tightly and sealed, without enough water or even air for those on board, they ran back and forth between stations until more than 2,500 had died.
Flescher knows that her uncle and cousin ended up on the trains; that her father never came home means, she believes, that he did, too.
With the family's apartment destroyed and the breadwinner gone, Flescher and her brother and mother went to live with a relative, in the area of the city to which the surviving Jews — almost all women and children — were constrained. They wore the required yellow stars on their clothes and obeyed a strict curfew. They stayed for years as the city was bombed to ruins, surviving almost exclusively on mamaliga, a cornmeal porridge.
"I remember every minute of my fear and my suffering," Flescher, who now lives in Queens, N.Y., tells TIME. "I suffered every single day — I'm not even talking about being hungry and thirsty. We were persecuted."
What happened in Iasi has been described as “the best-known event in the history of the Romanian Holocaust," but what exactly Flescher went through is still being debated. Specifically, was her experience in Iasi after the pogrom — in which her and her family's movements were curtailed by regulations and threats, but not by walls — mean that she lived in a ghetto? Though it may seem like mere semantics in light of the specifics of the suffering, the answer could even today have an immediate effect on Flescher's daily life, and that of roughly a thousand other people, too.
That's because, under the complicated structure of compensation and restitution that has been established for Holocaust survivors over the intervening decades, those who were in a concentration camp or ghetto can receive a monthly pension from the German government, whereas many other survivors (those who fled before the Nazi advance, for example) were eligible for a one-time payment. The Jews of Iasi did receive such a payment, back in the 1950s, but their representatives believe that they are in fact owed the pension instead.
This question of the status of Iasi is one of the matters that those representatives hope might be resolved in the first week of July, in the next regularly scheduled round of annual negotiations between the German government and the organization known as the Conference on Jewish Material Claims Against Germany , or the Claims Conference, which represents a range of Jewish interests around the world. A delegation from the Conference, led by a survivor named Roman Kent and Ambassador Stuart Eizenstat, a long-time advisor to the U.S. on Holocaust issues, will meet in Berlin with representatives from Germany's Finance Ministry, under a system that has been in place since the early 1950s, when West Germany, Israel and the Claims Conference agreed that Germany would "make moral and material amends" for the Holocaust, as Chancellor Konrad Adenauer put it. What he meant and to whom it applies has evolved over the years, as understanding of the Holocaust has changed and as survivors have aged, but there's little question that the system reflects the new understanding of personal and national responsibility that arose in the post-Holocaust world.
“I can say that what [Germany] has done is historic. There’s never been in the history of world a defeated power that has paid not reparations like in World War I to governments, but to individual civilians who were harmed," Eizenstat told TIME. “I’m negotiating with people who — and this has been really inspiring — are second and third generation, and yet they continue to feel a moral obligation to help survivors until the last one is gone.”
The reaction to the idea of such reparations when they were first organized, in the 1950s, was mixed, as explored by Menachem Z. Rosensaft and Joana D. Rosensaft in their history of the development of the reparations structure. Some believed that the world's Jews should maintain a policy of "absolute non-fraternization" with Germany, and others shuddered at the suggestion that any dollar amount might be suggested as compensation for the Holocaust. Over the years, however, the two sides have gradually come to see each other as having to "work together to come to resolution," says Greg Schneider, executive vice president of the Claims Conference, who will also be attending the negotiations. (Even today, however, Schneider is careful to make the same point his predecessors made six decades ago: though the relationship between the Conference and Germany has produced many successes, no compensation will ever be satisfactory.)
So far, according to figures provided to TIME by the German Federal Ministry of Finance, Germany has given a total of more than 74.5 billion euros — or about $85 billion at today's exchange rate — to Holocaust survivors, who fall under a variety of statutory umbrellas. Under current agreements, about 55,000 Jewish people due monthly payments receive 336 euros, or about $381, a month. The Iasi question is part of a larger outstanding issue the Conference is focusing on, in trying to expand the number of people who can gain access to such pensions.
Despite the cooperation that now characterizes the annual negotiations between the Claims Conference and Germany, any distribution of funds on such a large scale involves complicated legal, definitional, financial and moral questions. That's part of the reason why, according to Schneider, negotiation sessions can run for up to 12 hours straight at a time, covering everything from frank discussions of feasibility to the recounting of survivors' stories.
“We’re deeply disappointed that this [Iasi] issue hasn’t been resolved and we’re strongly pressing for the resolution, hopefully in the next few weeks, because we think it’s a miscarriage of justice," said Greg Schneider, executive vice president of the Claims Conference, who will also be attending the negotiations. "But it's only possible to do so because of the leadership that Germany has taken on this issue."
Compensating those persecuted by the Nazis is of the highest priority for the German federal government, a spokesperson for the German Federal Ministry of Finance told TIME in statement in German.
As Eizenstat points out, keeping that priority in mind only gets more urgent as the decades pass, as survivors age and the resolution of these material claims against Germany enters what he calls its "last phase." He says there are 500,000 surviving Holocaust victims. They are elderly people by definition and many of them struggle to make ends meet, such that a few hundred dollars a month would make a big difference to them.
That is certainly true for Frances Flescher, who is still reeling from her losses in the the Iasi pogrom. While she says "it could help a lot financially" to receive a pension for what she went through, the satisfaction of recognition ranks first in her thoughts about the matter.
“I don’t understand why they kept quiet all this time. The Romanian people, we went through hell, and they didn’t recognize it," Flesher said. "Do I know why? I only suffer. We were wondering what happened — they forgot about the Romanian people? We were persecuted and wore yellow stars and the hunger that we went through and everything. I don’t know every place, but I know in Iasi what we went through.”Lily Rothman, Time

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um livro da rentrée

Ces rêves qui piétine: Les derniers jours de Magda Goebbels
Cécile  Pellerin, 15.09.2017
"Le premier roman du journaliste Sébastien Spitzer saisit immédiatement le lecteur qui s’en empare. Et éblouit. La force du sujet, la profondeur des personnages, le réalisme du contexte historique, l’écriture expressive, pénétrante, intensément musicale, quasi-magnétique et la structure narrative, construite  subtilement autour d’une alternance de voix obsédantes offrent à ce roman, une intensité rare et belle. Exceptionnelle.
La lecture est incandescente, à la fois déchirante et douloureuse, relate l’horreur absolue et macabre mais conserve une distance à la fois juste et très digne. Empreinte d’une humanité salutaire.
Passeur d’Histoire, dépositaire du Devoir de Mémoire, le récit va plus loin et interroge sur la notion de survie, l’amour des siens, le sens du sacrifice.
De plus, il mélange habilement fiction et faits réels, entraîne le lecteur dans l’intimité des personnages et crée une proximité troublante, même avec les plus monstrueux. Habile à exprimer les doutes, les peurs, les interrogations et les contradictions, les fragilités humaines, le roman d’Antoine Spitzer, conserve aussi la rigueur de l’enquête historique. Et s’il ne transforme rien des événements passés, sa sensibilité d’écrivain, son talent romanesque prennent (et c’est tant mieux !) le dessus.
L’Allemagne est vaincue. Berlin est désormais une ville assiégée, bombardée. Sous terre, Magda Goebbels, son mari, ses sept enfants, Hitler et quelques autres se cachent en attendant la mort, proche désormais. « Speer distribue de petites capsules de cuivre. Tous ceux qui ont compté avaleront leur cyanure, parce qu’il faut du courage pour lever un canon contre une tempe et presser la détente. »
L’Allemagne est vaincue. Des hommes et des femmes, survivants des camps, déambulent sur les routes pour rejoindre les villes, hagards et affamés. Le chemin vers la liberté est long, encore peuplé d’ennemis, de paysans hostiles. Parmi ces déportés, Judah, Fela et sa petite fille Ava, tour à tour détenteurs d’un rouleau de cuir contenant des lettres de prisonniers des camps d’extermination. Ils sont porteurs de la Vérité.

Parmi ces lettres, il y a celles de Richard Friedländer, Juif déporté, père de Martha Goebbels.
Dans ce bunker sordide, « parcouru par les rats, les spasmes des bombes d’en haut, l’humidité, l’odeur des chiens qui défèquent partout », Magda rêve, livre ses angoisses et se souvient, raconte ses origines modestes,  « une vie au ras de la vie des autres », son enfance chez les Ursulines belges, sa soif d’exister, de devenir quelqu’un jusqu’à renier ses origines, oublier père et mère et devenir l’épouse d’un gauleiter. « La gloire l’a portée quinze années durant. C’est long quinze ans. Elle s’y est habituée. » 

En alternance avec ces souvenirs, des images de camps surgissent et dépeignent des conditions de (sur)vie épouvantables, notamment pour les femmes  de Silésie du block 24-A où naîtra Ava.  Beaucoup de vies exterminées maintenues en mémoire par des lettres dont celles (imaginaires) de Richard, dévoilées à plusieurs reprises au fil du roman.
Un livre tout en mouvement, finement révélateur (très précis) de l’effondrement et de la folie d’une femme et d’un pays vaincu et robuste en même temps à rendre compte sans pathos mais avec justesse des horreurs que la libération des camps révèle.
Accompagnée par une écriture efficace, directe et ardente, vraiment très belle, les histoires entremêlées (de Magda, de son mari, de son père, des déportés, des soldats américains), créent l’Histoire avec brio et fascinent sans préférence. Chacune entête, martèle l’esprit, touche à vif. Chacune est essentielle." Cécile Pellerin, in ActuaLitté, les univers du livre
Sébastien Spitzer – Ces rêves qu'on piétine – Editions de L’Observatoire – 9791032900710 – 2 € / Ebook 9791032900727 – 13,99 €
Les critiques de la rentrée littéraire 2017

Rentrée littéraire 2017, la fashion week des libraires


domingo, 17 de setembro de 2017

Ao Domingo Há Música

Todos os sonhos são um pouco misteriosos, e é nisso que reside a sua beleza; mas alguns são muito misteriosos, ou seja , não se percebe nada; são como os enigmas. Mas enquanto os enigmas  têm solução, os sonhos não têm. Podemos atribuir-lhes uma  centena de significados diferentes, cada um deles tão bom como o outro. 
                                                         Luigi Malerba, Il serpente

Todos os sonhos são sonhos. Mas há sonhos que parecem reais e há outros que nos confundem. Que não entendemos. Que nos decepcionam ou intrigam. E, por vezes, há aqueles que nos deliciam, que nos cativam, que nos estimulam e que nos despertam para a vida.  
A Música propicia o sonho.  Não sei se será o mesmo para todos, ou se todos têm a mesma capacidade de sonhar. Sei, apenas,  que do sonho nasce música e  com a Música se sonha.
O que desejo , neste Setembro de 2017, é que todos possamos sonhar. A música que se apresenta é apenas o leitmotiv. Exploremo-lo.

Voices of Change, Harlem Gospel Choir e  Gigi Radics numa excelente interpretação de Amazing grace , com a HAVASI Symphonic Arena Show, em 21 de Dezembro de 2013.

About Voices of Change
During our lives, we keep developing by the things we go through. We continuously learn from each other, the influences that affect us and of course from our own actions. Some change through religion, others by helping people and yet others by the positive force of music. What matters is positive change itself, not the way you achieve it. In addition, Voices Of Change says while we were born in different continents, we speak the same language deep in our hearts. And that common language is the language of music.

sábado, 16 de setembro de 2017

Carta aberta a meu pai

Querido Pai
Todas as cartas que lhe escrevo são abertas. Deixou de ter morada certa. Apenas ficou em mim, para sempre. E será um sempre muito precário. Também partirei qualquer dia. É esta a nossa maior premonição. Prever a nossa finitude. Sem hora, dia e ano, mas certa. Sem erro. Acontecerá. 
Não sei e nem tenho a certeza se me juntarei a si, pai. Quem dera que assim acontecesse. E que me  estivesse esperando com a mãe. Pensaria , então, que estaria a regressar da Escola ou talvez da Faculdade, quando alguns cabelos brancos adornavam já a sua cabeça. Que de solicitude havia em vós. Transformava-se em carinhosas e preocupadas  perguntas sobre o dia.   Se tinha sido  frutífero,  compensador,  agradável. E eu beijava-vos e contava-vos o que descobrira, o que me assombrara naquele percurso diurno . Era o tempo do meu crescimento.
Crescer, pai. Cresceram já os meus filhos . Hoje  são os meus netos que partem e regressam da Escola. Olho-os diariamente e revejo todos aqueles momentos tão semelhantes, mas irrepetíveis. Feita em saudade, tenho agora a mesma  idade, desse vosso/nosso  tempo distante
“Parece que crescemos mas não crescemos/ foram as coisas grandes que há/ o amor que há, a esperança que há/ que ficaram mais pequenos.” Palavras belas de um poema de Manuel António Pina. O mundo mudou muito desde que partiu , pai. Ontem , em Londres , houve um outro atentado terrorista. Não, não tem qualquer semelhança com o tempo do IRA. Há, sim e apenas,  um rótulo que se diz religioso, também. São atentados em nome de um grupo que se reclama islamita. E o mundo ficou exposto à facínora mão de alguém que aparece sem ser visto, sem marca , sem identificação mas cruel. Mata porque quer matar. Morre-se , sem idade, sem doença, sem previsão, em qualquer parte deste mundo, pelos planos obscuros de um grupo de loucos que invoca um deus que não pode existir. Sim, existir. Como é possível existir um deus que deseja e permite tantas mortes e tanto sofrimento em seu nome?
É este o nosso tempo.  Um tempo de muito (des)amor. Partiu, pai, antes que tudo isto se mostrasse. Diria que desejou tanto a Liberdade  , neste nosso Portugal, que não compreenderia como foi possível  o mundo ficar à mercê de grupos ignotos. Viveu os dias de Democracia. Veio do dealbar da República . Enfrentou a opressão da ditadura. Lutou e viveu a vitória da Liberdade: o reconhecimento de que nos projectamos em cada um . O rosto do outro é a nossa imagem. Era esta a nossa divisa.
Não é mais, pai. Nem sei se ela vingou. Quando e como? Talvez entre nós, enquanto família. E convosco entre nós.
Hoje é dia do seu aniversário. Nasceu há 107 anos. Ultrapassa um século. O mundo mudou muito. Assistiu a muita dessa mudança.  Outras vieram . Nem todas fizeram o mundo pior. Há momentos de grande progresso. De consciência interplanetária. De descoberta científica e de um progressivo sentir ecológico. 
O Homem tem novas ferramentas para ser feliz e tornar o mundo melhor. Basta apenas descobrir o caminho que chegue a todos e a cada um, em completude. 
Quero, entretanto, dizer-lhe que permanece intenso e incólume o amor ,o carinho que sempre lhe tive. A  saudade aumenta e dói porque me faz falta, pai.  Como  seria  bom  poder felicitá-lo, como sempre o fiz. Eram dias maravilhosos. Só na memória os vivo intensamente. Consumo-os com ardoroso afecto. Enchem-me o coração.
Parabéns, pai.